quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Escher



Andei sozinha na galeria. Pensei o quanto as coisas estavam fora de acordo. No quão eu estive errada por todo esse tempo, sobre os mal-entendidos da vida, sobre os relacionamentos, sobre as pessoas, sobre o amor... A arte me mostrava muitas respostas e fiquei até satisfeita em saber que aquilo me afetava, que eu era sensível ao estimulo que outrora não passava de um quadro ou de uma instalação. Uma reconstrução do mundo. Uma nova organização. Novas visões.

Uma realidade impossível (ou possível dentro de uma perspectiva diferente?). Um envolto aonde as coisas se misturam e você não tem mais certeza sobre o que é o que. E durante a repetição indefinida a gente acaba se perdendo na transgressora falta de limites entre uma coisa e outra: um painel de anjos e demônios. Como seria possível que nos pedissem algum discernimento nessa vida, quando esse mundo e os sentidos de estar nele são tão confusos e tão misturados a tantas outras coisas? Não existe pureza absoluta nas respostas. Era esperar muito de meros mortais.
Então, os espelhos e jogos ópticos me tiraram da solidão. Eu estava em minha companhia, estava aprendendo a viver comigo, começando a me firmar, sem apoios, sem esteios. Eu não preciso tanto dessa ajuda, mas quero!Desejo que possam vir ao meu auxilio e... No entanto, ninguém vem. Apenas o meu reflexo. Não é decepcionante, pois com alguma experiência aprendi que em mim não há uma gravidade demasiada que não sejam os defeitos mais comuns. Desta vez é o mundo apresenta alguma surdez aos meus gritos.
As imagens, algumas tão bem delineadas,tão palpáveis. A textura, cor. O trabalho. Tudo ali soava como um ponto em comum da maneira como eu me sentia. Não como uma natureza morta, e sim como um painel sem grandes delimitações. E vi que era bom, apesar de ser solitário.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Carta do Amarantes

Meu amor,

Hoje descobri que não tenho nada a oferecer a ti. Estive repensando a minha insignificância neste universo e notei que minha presença sequer pode mudar o seu dia. As pessoas mais desinteressantes me vêem com alguma graça, o que me denota alguma falta de talento meu, mas que não é relevante até então.
Não conheço nada da Bahia, não sei tirar fotos, não sei falar francês, não sei dirigir, não sei cantar bem, não tenho dinheiro, não sei explicar com clareza sobre as coisas do mundo que você já sabe muito antes de mim.
Desconfio da minha falta de luxo e de qualidades por conta da pouca idade, mesmo assim insisto em achar que aos trinta vou ser tão sem indulto quanto sou hoje. Nem sei se posso te encontrar um dia na rua e dizer com todas as letras o que digo aqui, mas espero que o que eu contar sobre mim tenha algum valor em seu julgamento.
Sobre mim, posso dizer que tenho olhos vivos e curiosos, tenho o humor de uma criança e as vezes sou tão tímido quanto uma. Sei sobre átomos e tenho uma noção de física, penso que talvez a ciência me ajude a entender essa vida tanto quanto poesias e a história dos dinossauros. Sou ambicioso e almejo crescer na vida, embora não tenha chegado aos 1,60m de altura. Tenho uma fonte de alegria quase inesgotável e sofro de hiperatividade, em alguns momentos isso pode ser um desconcerto irritante, até eu concordo com isso. Tenho déficit de atenção, então, por favor, não me leve a mal se alguma vez eu perder o foco durante a conversa. Ao menos podes contar com a minha indiscutível boa memória, assim nunca irá decepcionar-se em datas importantes.

É bem verdade que minha vida pessoal é mais parada do que uma estátua viva.Apenas sei que tenho uma família, um lugar pra onde voltar, mas tudo anda mais inerte e solitário do que nunca...

De qualquer modo, não possuo nada palpável. Nenhum vestígio que possa insinuar um futuro entre nós. Tenho-lhe admiração, entretanto, não me sinto bom o suficiente para a tarefa de te fazer feliz. Pode parecer moribundo de minha parte afirmar isso, no entanto, pense comigo: você não pode trocar o que já conquistou por algo que não tem garantia alguma. Então deixo assim, claro que me interesso com todo gosto por sua pessoa, mas me sinto inseguro e inapto para me intrometer na sua vida. Espero sinceramente, que esse quadro mude nos próximos anos para que assim eu possa ter um envolvimento com você. Por hora, deixarei que minha sempre saudável imaginação tome conta de todo resto.

Sem mais,

Amarantes de Tudor

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Dobre os joelhos: humildade

Uma vez alguém me disse:

"Você jamais vai conseguir ver a realidade com seus olhos sujos, cheios de julgamentos ao seu próprio favor.Você sempre vai ser a vitima, você vai estar sempre certa."

Depois de um certo tempo entendi.Eis que não posso arrancar meus olhos defeituosos, mas posso ser humilde e pedir a sua opinião, sua ajuda, seus olhos.

Por que será que a gente demora a ver que tá fazendo tudo errado? Porque a gente não quer pedir ajuda a ninguém.

domingo, 30 de janeiro de 2011

Vicio da regressão


Uma mesa de chá flutuante. Duas cadeiras na mesma altura. Biscoitos, torradas, cream cheese, aveia, mel...

Sentadas, eu e minha consciência conversávamos no fim da noite. Estávamos ambas, abismadas sobre falta da malicia costumeira. Uma espécie de pureza nos rondava e por isso era como se a perspectiva de vida tivesse regredido uns quinze anos.

O olhar sexual estava desinteressado, a paciência e esperança restauradas, a iniciativa era amistosa e compreensiva, o desejo era involuntariamente puro. Era como se eu tivesse agindo e tratando de todos os meus assuntos, com a opção de resolvê-los com a mesma calma de quando tinha quatro anos: querendo ser amiga, demonstrando carinho, satisfação, sem grandes anseios sobre as pessoas, com um aspecto brincalhão, compartilhando informações coloridas, escutando o som e o timbre da voz, dizendo sem jeito, um pouco canastrona, desavergonhada, sem maldade, indiscutivelmente infantil maneira de se comportar.

Acho que tá ai um segredo pra se sentir bem, pra tirar a culpa da desconfiança e ferocidade do mundo adulto. Uma semana sem esse comportamento impessoal, sem essas cerimônias, sem esses julgamentos, sem a malevolência. Digo-lhes durante esse chá sonhado, flutuante na madrugada, que tem me feito muito bem esse vicio da regressão. Eu tentei esse mundo adulto de mais, e só vi dor e sofrimento. Não estou ignorando o mundo real, estou mudando a maneira de vivê-lo. Afinal se gentileza gera gentileza, mudança gera mudança. Então mudando e melhorando, simplificando o eu, simplificamos o mundo. É uma experiência com validade reconhecida.

sábado, 29 de janeiro de 2011

Quebra na sequência

Pausaremos a questão das lendas de Parada Angélica, para dar atenção a outros assuntos.Isto é apenas uma garantia à vocês, nossos contos continuarão em breve, talvez menos sequenciais.Vamos desligar vícios além deste bairro e depois voltar, como bons filhos pródigos.Janeiro foi o mês de inaugurar essa seção, apenas um pontapé inicial dentro das próximas ilustrações que virão.
Como esse lugar é esquecido e jogado ao mundo, terei o prazer de trazer fotos dos lugares, e quiçá, dos personagens que caminham na hibridação real/ficcional.

Aguardem!

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

O Cuxichó

Existe um lugar, ainda na Rua dos Lírios, que é quase uma favela em um único terreno. Um monte de barracos e casas amontoadas e ao centro uma mangueira gigantesca. Se isto fosse um conto no centro do Rio, chamariam aquilo de Cortiço, mas é muito mais favelizante do que o velho modelo de moradia. E nem na época de ouro –se é que Parada Angélica teve uma – nada aqui seria um cortiço como o do Azevedo.

Quando minha avó ainda era viva, as casinhas já existiam. Ali conviviam e, até hoje, convivem crianças, galinhas, adultos, cachorros e o que mais tiver vida! Todos da mesma família ou agregados como maridos, esposas, cunhados, enfim... Adjacentes na linha parental. Talvez por ser um aglomerado sem inicio e nem fim, onde a higiene e os cuidados de saúde básica eram duvidosos, a minha vovózinha chamou esse lugar de cuxichó.

Eu nem sei se a grafia é essa porque esse auge do neologismo era apenas falado, e tão pouco sei seu significado exato. Contudo, ao olhar aquelas casinhas, o buteco na frente, as lonas plásticas, o tijolo sem reboco , os basculantes sem vidros, eu sem duvida digo “Ali é o Cuxichó”.